Buenos Aires em janeiro, não, obrigado!
Desde o instante em que embarquei já senti vontade de conhecê-la. E foi quando os primeiros prédios de Puerto Madero alcançaram minha vista que entendi que a minha relação com Buenos Aires seria de amor e ódio.
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Cinza. É uma cidade cinza, com muitos vidros e prédios que choram em janeiro pelo escoamento dos aparelhos de ar condicionado pendurados nas janelas. Cinza e barulhenta. Com a loucura típica de uma grande cidade, milhares de automóveis, o metrô passando por debaixo da Praça de Maio fazendo tremer de medo o lixo que descansa sobre o gramado, as linhas de ônibus de todas as cores e tamanhos, as estações de trem que entristecem a cidade por partes, com as bicicletas nos vagões e o vinho em caixa térmica que vai de mão em mão da Once até Villa Luro. |
O inevitável murmúrio da multidão de turistas que caminha pelo calçadão Florida, aos que se somam as vestimentas cinzas das pessoas que trabalham, inclusive em janeiro. Cidade cinza, barulhenta e úmida (o que mata é a umidade), e poderíamos continuar acrescentando adjetivos e todos convergiriam para a mesma conclusão: Buenos Aires em janeiro não, muito obrigado.
| E apesar de tudo, ela me conquistou. Minha estadia na cidade se estendeu além do previsto. Fiquei viciada nas praças e parques do bairro Devoto, nas tardes de chimarrão e calor, quando as sorveterias da cidade (as quais, diria eu, tendem a ser infinitas) se veem repletas de pessoas indecisas entre tantos sabores, cores e texturas. Apaixonei-me por San Telmo e La Boca, como boa estrangeira que sou, pelas ruas de paralelepípedos, pelas feiras de artesãos aos sábados, pelas milongas se fazendo ouvir por trás de cada cortina e pelas Quilmes suando sobre as mesas redondas em cada esquina. |
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Apaixonei-me pelos bares da noite, quando a cidade que nunca dorme está mais quieta que nunca. Pelas mil avenidas “mais compridas do mundo” e “mais largas do mundo”. Pelo estádio de Vélez e pela estação de Linniers às sete da tarde, quando eu me espantava com o movimento involuntário das massas, que apesar da umidade (que é o que mata) caminha sem se derreter.
Sou uma apaixonada pela cidade “mais feia do mundo”. E cada vez que retorno, a mesma sensação de medo me invade: e se eu nunca quiser ir embora de Buenos Aires?
Ana Cortazo (Colaboradora)
Engenharia de Energias Renováveis - Unila
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