Augusto Roa Bastos iluminando lá do fundo as raízes
“Há o real do que não se vê e do que ainda não existe” (Roa Bastos)
Alai Garcia Diniz*
Nem o fato de me roubarem a bolsa na Praça Uruguaya, em pleno centro de Assunção, conseguiu competir com o que me ficou na memória daquela primeira viagem ao Paraguai, no ano de 1992, diante de uma elegância discreta de um ser de gestos contidos e voz serena que eu acabara de conhecer no café do Hotel Cassino: Augusto Roa Bastos.
Também pudera. Ao ser apresentada pelo poeta Miguel Ángel Fernandez (a quem agradeço publicamente) o que o escritor retruca ao ouvir meu nome pela primeira vez? Nada mais nada menos que um verso de repentista que lança ao ar um sopro lírico: ”Alai...es casi un gemido”.
Essa primeira impressão causada por Roa Bastos naquela primeira frase ilustra como ele era, naturalmente, capaz de lirismo. Mesmo tendo lançado, em 1942, uma obra poética – El ruiseñor de la aurora y otros poemas - nas décadas seguintes, quando começa a ser conhecido por seus relatos, passa a rejeitar essa primeira fase dizendo-se incapaz de escrever poemas.
Diferentemente do autor, o que penso é que Roa Bastos já havia encontrado em sua prosa um modo eficaz de impregnar a narrativa em castelhano com a inflexão de uma hibridez profunda que a outra língua falada no Paraguai (o guarani) operava no seio da linguagem, produzindo com isso uma textura estranha na língua que se chama poesia.
Desde sua adolescência castigada na retaguarda da Guerra do Chaco (1932-1935), após uma fuga “patriótica” de um bando de colegiais que deixavam o seminário rumo ao front, Roa Bastos havia aprendido, a duras penas, a sobreviver pela pena. E esta foi sua maior escola, pois dos bancos escolares saltou direto para a redação de um jornal. Segundo ele mesmo, foi graças a sua atuação como cantor que ganha uma bolsa do Conselho Britânico para ser correspondente em Londres no ano de 1945.
Com a ditadura de Higinio Morínigo veio o enfrentamento entre o governo e o jornal El país do qual Roa Bastos se tornara redator. Isso culminou, em 1947, em momento de tensões internas, com uma violenta perseguição à oposição por parte de paramilitares - los Pymandí, criados para acabar com os inimigos do regime. Em entrevista a Tomás Eloy Martínez, Roa Bastos revela que graças ao abrigo que lhe havia dado Sergio Buarque de Holanda, agregado cultural do Brasil no Paraguai, ele consegue um salvo-conduto para exilar-se e parte para Buenos Aires.
Na capital portenha, o exilado recorre a diferentes ofícios para sobreviver, mas como já vimos à sua veia de cantor, é preciso acrescentar a de tradutor de letras de inúmeras guaranias que da língua guarani Roa Bastos vertia ao castelhano. E também traduzia do português como é o caso do samba-canção “Vingança” de Lupicinio Rodrigues que, em castelhano, na versão de Alberto Marino, converte-se em tango. A letra de Roa Bastos mostra, que, em geral, a passagem de uma cultura a outra (a interculturalidade) caracteriza também recriação e ambientação, que, no caso do samba- canção, foi de ritmo. Como Vinicius de Moraes, Roa Bastos circulava dinamicamente e sem preconceitos pela cultura de massa e demonstrava com isso a liberdade e o diálogo entre as linguagens que vão do conto ao roteiro, do poema ao romance ou à letra de música, uma das características que reputo das mais importantes em sua obra. O próprio autor costuma denominar sua obra como uma “ poética das variações” pois há personagens e episódios que se repetem em circunstâncias distintas e ao longo de sua produção literária. No entanto, eu penso que mais do que variações, Roa Bastos combina e desestabiliza fronteiras entre linguagens em diferentes aspectos e formatos. Que tal conferir a letra roabastiana de Lupicinio Rodrigues?
Me gustó tanto, tanto, cuando me contaron
Que la vieron bebiendo y llorando en la mesa de un bar.
Y que cuando mis viejos amigos por mí preguntaron
Un sollozo apagó su voz y no la dejó hablar.
Me gustó tanto, tanto, cuando me contaron
Que hasta tuve que hacer un esfuerzo por disimular.
Se arrepiente y quizá el recuerdo sea su desespero
Ella debe estar bien consciente de lo que causó,
ella me hizo pasar tal vergüenza con un compañero
Y la vergüenza es la herencia mayor que el viejo me dejó.
Mientras yo tenga voz en el pecho no quiero más nada
Que clamar a los santos venganza, venganza clamar,
Ella debe rodar cual las piedras ruedan por las calles
Sin tener un rincón en su vida para descansar
De ajudante de hotel a carteiro, Roa Bastos chega a trabalhar em uma gráfica, dormindo em meio a máquinas, aproveitando as noites para escrever os 17 contos da obra: El trueno entre las hojas (1953) e um romance Hijo de Hombre (1960) em seis meses. Os dez roteiros para filmes que escreveu entre 1957 a 1970 se perderam, mas restaram filmes como La sed; Alias Gardelito; El trueno entre las hojas (1958); fragmentos de Sabaleros etc...
Descrever a intensidade produtiva no primeiro exílio portenho auxilia a entender pelo menos três períodos diferentes dessa obra pois os produtos estéticos anteriores a esse período demonstram um amadurecimento literário que apresenta uma poética desenvolvida no embate entre duas línguas e duas culturas: uma oral (guarani) e outra oficial e escrita (o castelhano), que, no exílio, reforça a memória para indicar uma defesa da ambiguidade que perpassam determinadas obsessões. Em temas como o trabalho semi-escravo nas madeireiras; a caça de animais e a de garotas indígenas; as relações familiares e de gênero durante a Guerra do Chaco (1932-1935); o poder da cidade sobre o campo e seus mitos a um conto sobre o terrorismo urbano ( “Ajuste de cuentas”) em uma mescla em que mais de um tema disputa entre si o espaço ficcional do relato. Comparar tal procedimento estético às diferentes camadas de uma cebola que pode causar efeitos como o do choro ( no leitor) oferece apenas uma mostra do que essa escritura torna-se capaz. No entanto, antes de abordar os romances acredito que um de seus marcos é o de salientar uma espécie de teoria da narrativa no conto denominado “Contar um conto”. 1
Há quem diga que os contos de Roa Bastos como a de muitos outros romancistas, servem apenas como exercício para uma escrita de fôlego. Ou que as implicações ideológicas do autor abortam uma poética. Ledo engano! Os relatos breves do autor ocultam uma poética que se afirma a cada passo e estudar-lhe os relatos breves sacodem vetustas crenças sobre a hierarquia do romance sobre o conto. Mesmo que o romance venda mais, talvez este critério comercial não seja o marco de uma discussão sobre o campo literário que nos interesse aqui levantar.
Sem dúvida, a década de 50 foi uma guinada na vida de Roa Bastos que acaba por ser publicado num centro latino-americano como o de Buenos Aires. Deste modo o exílio permite-lhe contato com escritores cuja geração se conhece como a da Nova Narrativa Latino-americana por suas rupturas com o relato realista convencional. Este movimento que vem a ser a fisionomia acadêmica do que passa a ser rotulado ,popularmente, como “boom”, serve para que se localize o momento de atenção particular pelas editoras européias e norte-americanas à produção literária latino-americana, obviamente, que isso se deve a um contexto como o da Guerra Fria em que há um interesse político-cultural por uma região tão pouco conhecida e que, precisamente, naquela época, começava a chamar para si a atenção do Ocidente, com o abalo que causa a Revolução Cubana, em 1959.
Como um dos gestores da novelística em tempos de Guerra Fria e das ditaduras experimentou escrever sobre o monoteísmo do poder na trilogia composta por Hijo del hombre (1960); Yo el Supremo (1974) e El fiscal (1992) – eixo temático de sua narrativa, segundo palavras suas. Em Hijo de Hombre, primeiro romance, cuja temporalidade representa as primeiras décadas (1910 a 1935) do século XX, no Paraguai, há diferentes vozes testemunhais. O narrador parece tratar-se de Miguel Vera, prefeito de Itapé que, ao fim, confessa qual era seu real propósito: “ este pueblo tan calumniado de América, que durante siglos ha oscilado sin descanso entre la rebeldía y la opresión”. (ROA BASTOS, 1984, p.285). Afinal, seria a obra uma espécie de peregrinação mítica pela história paraguaia através de um jogo simbólico com o cristianismo?
Yo el supremo, o segundo trata da ditadura de Gaspar Rodríguez Francia – conhecido como “Doutor Francia” – que governou o país quando da independência da coroa espanhola - 1814 a 1840 mesclando subjetividades num Yo plural que engloba o próprio ser que escreve. Sob o ponto de vista de um narrador cuja memória compõe-se de um labirinto de vozes que compila e questiona a história oficial, atua também sobre a ficção para criar dúvidas e enigmas ao leitor a partir da experiência ambígua da escrita. Os três romances mais conhecidos de Roa Bastos correspondem a três fases diferentes de sua vida. O primeiro romance, escrito em Buenos Aires - Hijo de Hombre, O segundo romance considerado sua obra prima é Yo el Supremo (1974) que, á primeira vista, ilude o leitor desavisado ao parecer tratar apenas da voz de José Gaspar Rodrigues de Francia, no período de 1913 a 1940, mas vai assumindo outras vozes em uma ambiguidade que atinge a própria autoridade de quem é o compilador da “história”. Explora-se a memória oral em forma de pasquins e relatos que interferem pelos vãos, assim como fragmentos de obras históricas, tomadas livremente em uma colcha de retalhos que uma paródia intencional já chegou a ser chamada de “estética do plágio”.
A terceira obra da trilogia do poder, menos conhecida, El fiscal (1992) realiza-se de fora para dentro, Da França ao Paraguai, partindo do exílio de Félix Moral que pretende voltar para enfrentar o ditador. Em uma linha pós-moderna que aguça o anacronismo e diferentes temporalidades, A memória de outro período autoritário (entre 1850 a 1870) para lembrar a daquele período recem passado ( a ditadura de Stroessner), superpõem-se focos, cujo delírio leva o país à guerra. O narrador retoma a Guerra Grande com seus quadros obsessivos como o episódio final da morte de Solano Lopez em Cerro Corá (01 de março de 1870). Conflui nesta cena mítica uma constelação de sentidos na redundância do espetáculo de sacrifício que reúne o exilado à cena de morte de Solano Lopez que renarra parodicamente o martírio da crucificação. No romance convertido em espetáculo midiático, por ocasião do Bicentenário, no dia 15 de maio de 2011, este rito foi novamente encenado como um marco cívico do Estado –nação paraguaio.
Roa Bastos, mesmo no exílio por quase cinquenta anos, nunca deixou de reivindicar seu direito a defender a particularidade multicultural e bilingue do Paraguai. Em 1982, expulso por Stroessner, ao voltar a Asunción com o intuito de registrar seu filho, nascido na França, torna-se apátrida, ao ser expatriado a Clorinda (Argentina), mas recebe de imediato o direito à nacionalidade francesa e espanhola, adotando, em 1983, a esta última cidadania. Entende-se a partir daí esse empenho travestido em Félix Moral por denegrir o Tiranossauro, um dos modos de referir-se ao ditador no romance El fiscal.
Cabe lembrar que, no início do século XX, o peruano Luis Alberto Sánchez, em visita forçada a Assunção, se refere à "incógnita do Paraguai", aludindo a um vazio cultural existente. Esta visão perpassa muitos discursos de intelectuais latino-americanos que acabam identificando um "atraso" no sistema cultural paraguaio relativamente a outros países. Entretanto, mais que ignorância, este tipo de idéia para Roa Bastos se configura de modo especial:
“ o Paraguai é o único país radicalmente bilingue de nossa América, e esta divisão quase esquizofrenica de sua língua aparece já na leitura que o próprio autor faz de seus textos. Ler a partir de que língua? Se lê a partir do castelhano sente falta do guarani e se lê do guarani , o texto parece estrangeiro...” (ROA BASTOS, 1986, p.75)
Como escritor, Augusto Roa Bastos, soube extrair dessa realidade híbrida e multifacetada, em termos culturais, em combinação com uma vivencia exilada relatos em que a experiência histórica carrega uma marca mítica, que mescla em seus romances desde Hijo del hombre (1960); Yo el Supremo (1974); Vigilia del Almirante (1992); El fiscal (1993); Contravida ( 1994); Madame Sui (1996); Los conjurados del quilombo del Gran Chaco (2001) obsessões do imaginário bélico no Paraguai. Em diversos gêneros literários que se abrem como um leque ao leitor, passando da biografia, ao ensaio e da autobiografia ao testemunho, Roa Bastos transforma a literatura num caleidoscópio em que estes discursos se cruzam de modo circular com o uso da simultaneidade temporal que traz à baila uma memória opressiva.
Há quem diga que a história da América Latina é uma história de violência e Roa Bastos apresenta, em grande parte de seus textos, a lucidez de quem captou o trauma cultural bélico, seja através da memória da guerra que viveu nos anos trinta ( Guerra do Chaco) seja a anterior, a mais violenta do continente americano no século XIX: a Guerra Guasu, responsável por dizimar mais da metade da população masculina do país e chamada no Brasil de Guerra do Paraguai (1864-1870) e na Argentina e Uruguai como a Guerra da Tríplice Aliança. Outro conflito, a Guerra do Chaco entre o Paraguai e a Bolívia de1932 a 1935, vivenciada por Roa Bastos como já comentamos no início do texto.
Pode-se entender por que o elemento épico nunca se dissociou da biografia de Roa Bastos. Desde sua juventude, inicialmente pelas guerras em que participou como (militar) jornalista ou depois na luta interna em seu país como militante contra um regime de exceção que, em 1947, lhe obriga a exilar-se para não morrer como muitos de seus companheiros de geração.
Sem a pretensão de abranger todo o universo da produção roabastiana, vale relembrar que sua trajetória ganha repercussão ocidental com a outorga do Prêmio Cervantes em 1989. Além de escritor consagrado na literatura de língua espanhola revela a partir dos anos 80 uma capacidade de crítica e autocrítica, ao abandonar, por exemplo, velhos lemas, contrariamente aos ditames de engajamentos políticos e patrulhamentos culturais, dizendo abertamente que “ a literatura não salvará a América Latina”. Para uma escritura localizada na América do Sul como parte da geração do “boom”, de fins dos anos 50 aos 70, Roa Bastos desenvolveu uma obra transculturadora como a do brasileiro João Guimarães Rosa, do peruano José María Arguedas; Garcia Márquez e Juan Rulfo, segundo opinião de Angel Rama.
Estes romances estão traduzidos em diversas línguas, e alguns deles receberam mais de uma versão em uma única língua. Ainda há muito que traduzir de sua obra para o português. Sua última vinda ao Brasil foi para o lançamento de um de seus últimos livros mais consagrados - Vigilia del Almirante (1992) – editado em português pela Mirabília, lançado no ano de celebração do Quinto Centenário da Descoberta da América. Foram poucos os escritores latino-americanos que conseguiram em sua escritura dar conta da pluralidade lingüística e cultural, da oralidade escrita e da escritura em forma oral que o bilingüismo realiza. Também a transculturação ocorrida como marca da colonização surge para romper o equilíbrio e a linearidade da narrativa exigindo um leitor atento e maduro para observar o sentido das marcas de ocultamentos, das tantas mortes culturais sofridas historicamente pela violência de imposições externas e internas.
Por isso quando encontro o conceito de Walter Mignolo de que para entender os conflitos sociais na América Latina seria necessário perceber a raça como uma categoria mais importante do que a de classe, entendo a perspicácia de Roa Bastos em sua defesa das culturas indígenas. A discussão sobre a crise no Equador e na Bolívia no ano de 2005 suscita uma revisão dessas categorias e nos permitem repensar que a classe se relaciona como categoria à história européia, mas etnia, conseqüência direta da colonização do século XVI, para a América Latina , segundo a concepção de Aníbal Quijano, está no bojo das relações entre cristãos que reivindicavam sua superioridade em relação a religiões inferiores como a dos muçulmanos e judeus e às não-religiões dos indígenas e africanos. Como não deixar de apontar a Augusto Roa Bastos como uma referência precoce com a organização da obra Las culturas condenadas, em 1978, ao denunciar o etnocídio das culturas indígenas?
Nesta obra se desbravam a mitologia, relatos e poemas das dezoito tribos paraguaias para mostrar como a "raça superior'" dos brancos e cristãos europeus, matriz do poder e de racismo, hierarquizou os seres humanos não brancos e europeus. Como intelectual Roa apresenta inúmeras pesquisas sobre a riqueza deste patrimônio imaterial que são as culturas indígenas em seu país.
O foco de Roa Bastos ao apresentar a cultura dos sobreviventes é a demonstração de que é a humanidade quem perde com o extermínio que continua sendo diário, segundo ele:
" não pode ser compreendida em toda a sua significação mas em um marco global de nossas sociedades baseadas no regime de opressão e espoliação dos estratos humanos que elas consideram "inferiores"; seu resultado é um processo de extinção destas comunidades. A tentativa de "civilizar" o índio terminam por exterminá-lo."
Sua vida no exílio não o afastou da problemática regional. Ninguém como Roa Bastos se engajou mais na integração regional da cultura dos países do Cone Sul ao propor uma discussão bilateral sobre a questão dos “brasilguaios”, em 1995. Graças a esforços desse intelectual orgânico, bem como unidos a movimentos fronteiriços, hoje proliferam as cooperativas que reúnem ambas as nacionalidades em solo paraguaio.
As palavras de Roa Bastos podem servir não somente aos paraguaios, a bolivianos, aos equatorianos ou aos peruanos, mas também a nós que temos quase duzentas línguas indígenas e portanto culturas, praticamente desconhecidas em território brasileiro. A leitura de Las culturas condenadas serve para repensarmos a questão indígena em diversos aspectos. A concessão de um território espacial - uma reserva, não dá conta do respeito e da necessidade de difusão cultural de que são merecedores. Os Mbya guarani que vivem aqui perto de Florianópolis e morrem de fome nas reservas indígenas de Massiambu e do Morro dos Cavalos. À beira de uma rodovia e cercados por terras inférteis, um território não basta e como diz Bartoméu Meliá- "agonizam cantando". Os Avá-guarani que vivem em São Miguel de Iguaçu, em aldeia vizinha a campos de soja respiram o agrotóxicos das lavouras e bebem a agua salobra do Rio Santa Clara que contorna o mesmo campo.
Não apenas vizinha mas intrinsecamente conectada a uma cultura que viaja entre fronteiras como a dos povos originários guarani, a cultura pluriétnica do Paraguai nada tem de incógnita. Exige apenas disposição e novas categorias para pesquisar sem preconceitos para descobrir sua riqueza cultural. Este era o olhar de Roa Bastos e daí vem um lirismo que não se esgota em sua prosa e transcende gêneros e que, denso de humanismo e energia, merece ser revisitado também como um dos poemas da obra El naranjal ardiente, escritos entre 1948 e 1949. Lembrem-se de que interna e externamente era o período pós-guerra, embora só tenha sido publicado em 1983.
LOS HOMBRES
Tan tierra son los hombres de mi tierra / Tão terra são os homens de minha terra
Que ya parece que estuvieran muertos, / Que parece até que estivessem mortos.
Por afuera dormidos y despiertos/ Por fora dormidos e despertos
Por dentro con el sueño de la guerra./ Por dentro com o sonho de uma guerra.
Tan tierra son que son ellos la tierra/ Tão terra são que são eles a terra
Andando con los huesos de sus muertos./ andando com os ossos de seus mortos
Y no hay semblantes, años ni desiertos/ E não há semblantes, anos nem desertos
Que no muestren el paso de la guerra. / Que não mostrem o passo dessa guerra.
De florecer antiguas cicatrices/ De florescer antigas cicatrizes
Tienen la piel arada y su barbecho/ Tem a pele arada e sua barbicha
Alumbran desde el fondo las raíces./ Iluminam lá do fundo as raizes
Tan hombres son los hombres de mi tierra / Tão homens são os homens de minha terra
Que en el color sangriento de su pecho / que na cor sangrenta de seu peito
La paz florida brota de su guerra./ a paz florida brota de sua guerra.
Para quem não se reconhecia como poeta, este poema mostra como, na verdade, seu lirismo só não se limita aos versos como impregna toda sua prosa. E, como, a cultura guarani acredita que o ser humano ao morrer tem a possibilidade de renascer, mas poucos são os que conseguem essa proeza. Disso dependeria toda a trajetória individual. O primeiro nascimento é uma dádiva, o segundo são as sementes plantadas nos demais.
Até pelas datas de seus dois nascimentos, Don Augusto comprova uma vida emblemática. Nasce no mesmo ano da Revolução Russa (1917) e morre renascendo com uma data significativa, 2005, a celebração do IV centenário do primeiro romance moderno do Ocidente - el Quixote.
Mas seria preciso levantar com mais cautela o cotidiano do escritor a partir de seu retorno ao Paraguai, nos anos 90, quando o país retoma a democracia, tempo ainda a pesquisar por haver muita especulação ao redor desses anos de reclusão interna em Assunção devido a um estado de saúde precário de Roa Bastos. Para voltar a um começo, como forma de concluir, provisoriamente, essa primeira abordagem, vale a pena pensar sobre o que Miguel Angel Fernández ( que me apresentou Roa Bastos naquele momento em que retornava a Assunçao) diz sobre o fim da vida de Roa Bastos no Paraguai,
“Quando Augusto Roa Bastos voltou para ficar definitivamente, foi bem recebido pelos meios oficiais e pelo povo, mas a “ a boa sociedade” literária não se mostrou igualmente acolhedora, provavelmente porque Roa foi inequivocamente um escritor comprometido com as causas populares. Seus dois últimos romances sao neste sentido uma mensagem e um testamento revolucionários. Próximo ao fim de sua vida sua saúde foi se deteriorando cada vez mais e aqueles que cuidaram dele o isolaram de seus amigos. Só quando o escritor atendia o telefone as portas de sua casa se abriam. Ainda assim, quando Fidel Castro o convidou para ir a Havana, Roa quis que eu o acompanhasse para apresentar na Casa de las Américas Yo el Supremo e suas Poesías Reunidas. Também me pediu que o representasse a receber a homenagem do II Festival da América do Sul, em Corumbá, no ano de 2004. Se tivesse sido bem cuidado, se tivesse sido evitado o primeiro acidente em sua própria casa, Um segundo acidente precipitou sua morte. Um homem como Roa, que levantou a bandeira da solidariedade e afirmou em sua obra valores humanos fundamentais não merecia este fim.”23
Augusto Roa Bastos foi quixotesco em vida? 1917 - 2005... essas datas poderiam corresponder às tensões entre as armas e as letras, existentes na trajetória dessa figura transnacional que se formou na vanguarda paraguaia dos anos 40, Quanto ao público, Roa Bastos deixa claro que não escreve para um público determinado. Cito:"O público escolhe seu próprio livro. Também não escreve para a posteridade. A posteridade não é rentável".
Roa Bastos não teme anunciar que escreve para sobreviver e com isso configura um novo tipo de escritor – o profissional. Representante da diáspora latino-americana seria hoje classificado como mais um “sudaca”? Extraindo saberes do sofrimento de uma geração que sofreu o êxodo político, soube deixar uma grande lição ao transformar a ficção da memória em memória da ficção.
Cito: Não nos resta outro refúgio que a sonhadora memória do esquecimento. Mas o esquecimento também pode esquecer que esquece. Só onde há tumbas a ressurreição é possível.
............................................................................................................................................................................................
* Professora Visitante Sênior Capes - UNILA
1 Acaba de sair no Paraguai uma antologia com oito contos de Roa Bastos, traduzidos ao português em que figura “Contar um conto” traduzido por mim. ROA BASTOS. Contos que cantam. Asunción: Ed. Servilibro, 2011.
2 Tradução de Alai Garcia Diniz.
3 Original de Miguel Angel Fernández ( agosto de 2011): Cuando Augusto Roa Bastos volvió para quedarse definitivamente, fue bien recibido por los medios oficiales y la gente de pueblo, pero la “buena sociedad” literaria no se mostró igualmente acogedora, probablemente porque Roa fue inequívocamente un escritor comprometido con las causas populares. Sus dos últimas novelas son en ese sentido un mensaje y un testamento revolucionarios. Hacia el final de su vida su salud se fue deteriorando cada vez más y quienes lo cuidaban lo aislaron de sus amigos. Sólo cuando él mismo atendía el teléfono las puertas de su casa se abrían. Aún así, cuando Fidel Castro lo invitó a La Habana, quiso que yo lo acompañara para presentar en la Casa de las Américas Yo el Supremo y sus Poesías reunidas. También me pidió que lo representara para recibir el homenaje del II Festival de América do Sul, en Corumbá, en 2004. Si hubiera estado bien cuidado, se hubiese evitado el primer accidente en su propia casa. Un segundo accidente precipitó su muerte. Un hombre como Roa, que levantó la bandera de la solidaridad y afirmó en su obra valores humanos fundamentales, no se merecía ese fin.
- Blog de peabiru
- Log in or register to post comments
