O Obstetra Ser-Latino

Maurício Ferreira*

Quando ouviu lá do alto sobre a proposta de parir a União com o auxílio de todos os seres que compunham os territórios adjuntos ao dele, o noviço Bracoruja, mesmo informando apenas pelos “bits”, lançou-se ao ar, deixando para trás as indecisões, seu ninho e todos aqueles que viessem a sentir sua ausência. Levava consigo somente a ansiedade e o otimismo inerente que possuíra.

Do aconchego ao destino o adejar foi longo, mas não tão longo quanto a de outros de sua espécie, embora a experiência fosse a mesma. Chegado a solo, local designado para a União - a terra das cascatas -, o Bracoruja deparou-se com os mais variados gorjeios, gruídos, sibilares, relinchares, grasnares, mugires, guinchares, zumbidos e todo tipo mais de ruído que pudera ele imaginar; cada ponte que atravessava era um som novo que lhe comovia. Percebeu que aquela região era realmente singular.

Quando enfim assentou-se em recanto silvestre, local já ordenado pelos lá de cima, Bracoruja teve seus primeiros contatos e impressões sobre os seres que conhecera somente através da “telinha”, e pode por fim, notar a simpatia dos Paracururus, a curiosidade dos Ururrapozas e o desjeito no futebol dos Argirafas.

Trocado experiências, impressões e curiosidades entre os seres, ordens lá de cima foram dadas para seguirem para o laboratório, onde se daria luz à União e a União, a luz, e lá os obstetras permaneceriam por no mínimo um intervalo entre Copas Mundiais de Futebol.

Chamou-lhe atenção certo episódio. Quando no caminho para a oficina de parto todos os seres tiveram que transpor uma larga barreira de concreto, cuja porta voz era uma sentinela pragmática bem peculiar. Quando enfim galgaram a barreira, ouviu de algum canto que aquele espaço que agora pisara era velado por uma natureza não muito comum, tratavam-se dos seres Paracururus e Bracorujas que se fundiram e que resultara em criaturas chamadas de Itacastores, os quais resguardavam toda aquela extensão admitida como Bi-Animal.

Fofoca feita e a ansiedade retomada, logo todos chegaram ao consultório elegido para o primeiro colóquio sobre a União com a presença dos lá de cima. Perguntas-dúvidas daqui, promessas, pronunciações acolá; o “rei”, benévolo, contou histórias; a “dama”, geófaga, contou viagens; ao fim Bracoruja pode concluir que o sacrifício e o adejar pareciam realmente não terem sidos em vão, embora sobre os adendos do palavrório, permanecia ele no necas de pitibirira.

Ao crepúsculo, a alegria da seresta: festa, e com direito a palavra mágica: coffee break. “zum-zum-zum chegou a hora, o samba vai começar, zum-zum-zum entra na roda, samba até se acabar...”; “... Galopeeeeeaaaaaa, yo jamás te olvidareeeeeeeee...”(...).

Como nem tudo são flores, e pior seria se fôssemos abelhas, durante a festa alguns seres, Bracorujas cruzado com Braburros, relincharam alguns afrontes: “comem, bebem, ficam na grama aos cuidados dos Itacastores; oras esses seres são capivaras! Ióóó, hoo, hoo!”

Frenéticos e já com uma nova denominação, Bracuruja e o restante voltaram para o recanto sob saudosa alegria. E assim terminou o dia.

As primaveras passaram e Bracoruja permaneceu por lá, estudou, refletiu, ajuizou e formulou uma teoria: "as ideias podem engravidar, cabem aos seres ajudar no parto; e todo parto, evidentemente, dói; e da dor, do sincretismo, nascerá um ser, o Ser-Latino, e que com ele possa-se eximir o obedecer as ordens que sempre vem de lá de cima, para enfim se ouvir as sugestões que vem dos lados".

Aos poucos a União ia nascendo e com o tempo a União seguia se fortalecendo: chegaram dois fortes Chilefantes, alguns espertos Perqüatis e outros tantos importantes Boliursos, contudo ainda àquela União havia carência, talvez da presença dos grandes Venleões, dos astutos Colobos e até mesmo dos camaradas Cubesouros, por que não?

A União ainda não nasceu completamente, mas parece que ainda hoje, por lá, segue um legado, uma palavra que ninguém hesita em pronunciá-la quando à vista há um aspirante a parteiro acomodado na grama, é do poema do saudoso Cãohorácio, se bem me lembro a palavra é:“Capiva riem”, em latim.

 

*estudante de Ciências Políticas da UNILA